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Bertold Brecht - Poesia


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Louvação da Desmemória
Boa é a desmemória! Sem ela, como iria deixar o filho a mãe que lhe deu de mamar, que lhe emprestou força aos membros e que o retinha para o experimentar.
Ou como iria o aluno deixar o mestre que lhe emprestou o saber? Com o saber emprestado, cumpre ao discípulo pôr-se a caminho.
Na casa velha os novos moradores entram; se lá estivessem ainda os que a construíram, seria a casa pequena demais.
O forno esquenta, e do oleiro ninguém se lembra mais. O lavrador não reconhece o pão depois de pronto.
Como levantar-se de novo o homem de manhã, sem o esquecimento que apaga os rastros da noite? Como iria, quem foi ao chão seis vezes, levantar-se pela sétima vez para amanhar o pedregoso chão, para subir ao perigoso céu?
É a fraqueza da memória que dá força à criatura humana. (Poemas e Canções.Trad. Geir Campos. Civilização Brasileira, 1996)

Fala ao amado que vai a guerra
Meu querido, meu querido, se agora vais para a guerra,
vais combater o inimigo, não vás na frente da guerra nem fiques atrás da guerra: o fogo é rubro na frente, atrás é rubra a fumaça. Fica no meio da guerra, perto do porta-estandarte. São mortos sempre os primeiros, os últimos são também; os do meio é que para casa vêm.
(Poemas e Canções. Trad. Geir Campos, Civilização Brasileira, 1996)
...
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido — à sua frente
Iluminado.
Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra.
Neste caso
Você nada precisa aprender.
Assim como é
Pode ficar.
Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Vocês tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Você não precisa levantar um dedo.
Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Professor, aprende!
Não digas tantas vezes que estás com a razão!
Deixa que o reconheçam os alunos!
Não forces com demasia a verdade: é que ela não resiste…
Escuta, quando falas!
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Pergunta
Como há de ser instituída a verdadeira ordem sem o saber das massas?
Sem aviso, não se pode o caminho para tantos descobrir.
Vós, grandes mestres, deveis escutar bem o que os pequenos dizem!
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Realizar algo de útil
Quando li que queimavam as obras dos que procuravam escrever a verdade
Mas ao tagarela George, o de fala bonita, convidaram
Para abrir sua Academia, desejei mais vivamente
Que chegue enfim o tempo em que o povo solicite a um homem desses
Que num dos locais de construção dos subúrbios
Empurre publicamente um carrinho de mão com cimento, para que Ao menos uma vez um deles realize algo de útil, com o que Poderia então retirar-se para sempre
Para cobrir o papel de letras
Às custas do
Rico povo trabalhador.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Quando me fizeram deixar o país
Lia-se nos jornais do pintor
Que isto acontecia porque num poema
Eu havia zombado dos soldados da Primeira Guerra. Realmente, no penúltimo ano da guerra
Quando aquele regime, para adiar sua derrota
Já enviava os mutilados novamente para o fogo
Ao lado dos velhos e meninos de dezessete anos
Descrevi em um poema
Como um soldado morto era desenterrado e
Sob o júbilo de todos os enganadores do povo
Sanguessugas e opressores
Conduzido de volta ao campo de batalha. Agora que preparam uma nova
Grande Guerra
Resolvidos a superar inclusive as barbaridades da última
Eles matam ou expulsam gente como eu
Que denuncia
Seus golpes.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Notícia sobre um náufrago
Quando o náufrago pisou em nossa ilha
Chegou como alguém que alcançou seu destino. Quase acredito que ao nos ver
A nós que havíamos corrido a ajudá-lo
Ele imediatamente sentiu compaixão. Já desde o início
Ocupou-se apenas de nossas coisas
Com a experiência do seu naufrágio
Ensinou-nos a velejar. Mesmo coragem
Ele nos instilou. Das águas tempestuosas
Falava com grande respeito, talvez
Por terem vencido um homem como ele. Sem dúvida
Haviam assim revelados muitos de seus truques. Este conhecimento faria de nós, alunos dele
Homens melhores. Sentindo falta de certas comidas
Ele melhorou nossa cozinha. Embora visivelmente insatisfeito consigo
Jamais se deixou ficar satisfeito com o estado de coisas
Em torno dele e de nós. Nunca, porém
Durante todo o tempo em que passou conosco
Ouvimo-lo queixar-se de outro alguém que não ele mesmo. Morreu de uma velha ferida. Já no leito
Experimentou um novo nó para nossas redes. Assim
Morreu aprendendo.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Sobre a decadência do amor
Suas mães deram à luz com dor, mas suas mulheres
Concebem com dor.
O ato do amor
Não mais vingará . O ajuntamento ainda ocorre, mas
O abraço é um abraço de lutadores. As mulheres
Ergueram o braço em defesa, enquanto
São cingidas por seus possuidores.
A rústica ordenhadora, conhecida
Por sua capacidade de no abraço
Sentir prazer, olha com desprezo
Suas infelizes irmãs vestidas em peles
Que recebem por cada meneio do traseiro bem-cuidado
A fonte paciente
Que deu de beber a tantas gerações
Vê com horror como a última
Lhe bebe a porção com expressão amarga.
Todo animal sabe fazê-lo. Entre esses
É tido como uma arte.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

A queima de livros
Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder. Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me Como um mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Mau tempo para a poesia
Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.
A árvore aleijada no quintal
Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.
Os barcos verdes e as velas alegres da baía
Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores. Por que falo apenas Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.
Em minha canção uma rima
Me pareceria quase uma insolência.
Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce
E o horror pelos discursos do pintor. Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Sobre a seriedade na arte
A seriedade do homem que dá forma às jóias de prata
É igualmente benvinda à arte do teatro, e benvinda
É a seriedade das pessoas que trancadas
Discutem o texto de um panfleto. Mas a seriedade
Do médico inclinado sobre o doente já não é adequada
À arte teatral, e inteiramente imprópria é
A seriedade do padre, seja suave ou inquieta.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

As novas eras
As novas eras não começam de uma vez
Meu avô já vivia no novo tempo
Meu neto viverá talvez ainda no velho,
A nova carne é comida com os velhos garfos.
Os carros automotores não havia
Nem os tanques
Os aeroplanos sobre nossos tetos não havia
Nem os bombardeiros.
Das novas antenas vêm as velhas tolices. A sabedoria é transmitida de boca em boca.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Sobre a atitude crítica
A atitude crítica
É para muitos não muito frutífera
Isto porque com sua crítica
Nada conseguem do Estado. Mas o que neste caso é atitude infrutífera
É apenas uma atitude fraca. Pela crítica armada
Estados podem ser esmagados.
A canalização de um rio
O enxerto de uma árvore
A educação de uma pessoa
A transformação de um Estado
Estes são exemplos de crítica frutífera. E são também
Exemplos de arte.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Regresso
A cidade natal, como a encontrarei ainda? Seguindo os enxames de bombardeiros
Volto para casa. Mas onde está ela? Lá onde sobem
Imensos montes de fumaça. Aquilo no meio do fogo
É ela.
A cidade natal, como me receberá? À minha frente vão os bombardeiros. Enxames mortais
Vos anunciam meu regresso. Incêndios
Precedem o filho.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)

Facilidade
Vejam só a facilidade
Com que o rio poderoso
Rompe as barragens! O terremoto
Com mão indolente
Sacode o chão. O fogo terrível
Toma com graça
A cidade de mil casas
E a devora com gosto: Um comilão treinado.
(Brecht; poemas - 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986)
...

A Cruz de Giz
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA. Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos. Com um giz tirado do bolso do casaco Ele fez uma pequena cruz na palma da mão. Ele contou que assim, e vestido à paisana anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso. Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança. Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos. Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar. Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.
...

A Exceção e a Regra
Estranhem o que não for estranho. Tomem por inexplicável o habitual. Sintam-se perplexos ante o cotidiano. Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.
...

A Fumaça
A pequena casa entre árvores no lago. Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.
...

A Máscara Do Mal
Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado. Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal
...

A Minha Mãe
Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
...

Acredite Apenas
Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos
Ouvem!
Também não acredite no que seus olhos vêem e seus
Ouvidos ouvem! Saiba também que não crer algo significa algo crer!
...

A Troca da Roda
Estou sentado á beira da estrada, o condutor muda a roda. Não me agrada o lugar de onde venho. Não me agrada o lugar para onde vou. Por que olho a troca da roda com impaciência?
...

As Boas Ações
Esmagar sempre o próximo não acaba por cansar? Invejar provoca um esforço que incha as veias da fronte. A mão que se estende naturalmente dá e recebe com a mesma facilidade. Mas a mão que agarra com avidez rapidamente endurece. Ah! que delicioso é dar! Ser generoso que bela tentação! Uma boa palavra brota suavemente como um suspiro de felicidade!
...

Aos que virão depois de nós
I
Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado. (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: Manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; Seguir seu caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. Sabedoria é isso! Mas eu não consigo agir assim. É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem, quando a fome reinava. Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta e me revoltei ao lado deles. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra. Eu comi o meu pão no meio das batalhas, deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas em que nós perecemos, pensem, quando falarem das nossas fraquezas, nos tempos sombrios de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes, mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados! quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos: o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca! Infelizmente, nós, que queríamos preparar o caminho para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão.
...

Com Cuidado Examino
Com cuidado examino
Meu plano: ele é
Grande, ele é
Irrealizável.
...

Como Bem Sei
Como bem sei
Os impuros viajam para o inferno
Através do céu inteiro. São levados em carruagens transparentes: Isto embaixo de vocês, lhe dizem
É o céu. Eu sei que lhes dizem isso
Pois imagino
Que justamente entre eles
Há muitos que não o reconheceriam, pois eles
Precisamente
Imaginavam-no mais radiante
...

Da Sedução Dos Anjos
Anjos seduzem-se: nunca ou a matar. Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
Para que do choque no fim te não caia.
Exorta-o a que agite bem o cú
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.
Das Elegias
De Buckow
Viesse um vento
Eu poderia alçar vela. Faltasse vela
Faria uma de pano e pau.
...

De Que Serve A Bondade
1 De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2 Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor: que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
...

Elogio da Dialética
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros. Os dominadores se estabelecem por dez mil anos. Só a força os garante. Tudo ficará como está. Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores. No mercado da exploração se diz em voz alta: Agora acaba de começar: E entre os oprimidos muitos dizem: Não se realizará jamais o que queremos! O que ainda vive não diga: jamais! O seguro não é seguro. Como está não ficará. Quando os dominadores falarem falarão também os dominados. Quem se atreve a dizer: jamais? De quem depende a continuação desse domínio? De quem depende a sua destruição? Igualmente de nós. Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem! Quem reconhece a situação como pode calar-se? Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã. E o "hoje" nascerá do "jamais".
...

Elogio do Revolucionário
Quando aumenta a repressão, muitos desanimam. Mas a coragem dele aumenta. Organiza sua luta pelo salário, pelo pão e pela conquista do poder. Interroga a propriedade: De onde vens? Pergunta a cada idéia: Serves a quem? Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino, ele cita os nomes. À mesa onde ele se senta se senta a insatisfação. À comida sabe mal e a sala se torna estreita. Aonde o vai a revolta e de onde o expulsam persiste a agitação.
...

Epístola Sobre O Suicídio
Matar-se
É coisa banal. Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso. Discutir com um amigo os prós e os contras. Um certo pathos, que atrai
Deve ser evitado. Embora isto não precise absolutamente ser um dogma. Mas melhor me parece, porém
Uma pequena mentira como de costume: Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou melhor
Ainda: Sua mulher foi infiel (Isto funciona com aqueles que ficam surpresos com essas coisas
E não é muito impressionante.)
De qualquer modo
Não deve parecer
Que a pessoa dava
Importância demais a si mesmo
...

Epitáfio Para Gorki
Aqui jaz
O enviado dos bairros da miséria
O que descreveu os atormentadores do povo
E aqueles que os combateram
O que foi educado nas ruas
O de baixa extração
Que ajudou a abolir o sistema de
Alto a
Baixo
O mestre do povo
Que aprendeu com o povo.
...

Esse Desemprego!
Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego! Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão. Quando queiram os senhores! A todo momento! Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento. Para nós é inexplicável
Tanto desemprego. Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego. Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível. É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido! Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego! Ou qual a sua opinião? Só nos pode convir Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir. Mas a questão é: nosso desemprego Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!
...

Eu Sempre Pensei
E eu sempre pensei: as mais simples palavras
Devem bastar. Quando eu disser como e
O coração de cada um ficará dilacerado. Que sucumbirás se não te defenderes
Isso logo verás.
Expulso
Por
Bom
Motivo
Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.
Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo. Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos. O latim de seus clérigos corruptos Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta. Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa. Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores. Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.
...

Ferro
No sonho esta noite Vi um grande temporal. Ele atingiui os andaimes Curvou a viga feita A de ferro. Mas o que era de madeira Dobrou-se e ficou.
...

Jamais Te Amei Tanto
Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste. Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur
Eu que brincava ao encontro do destino negro - Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul. Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur
Jamais igual, antes ou depois - É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.
...

Lendo Horácio
Mesmo o diluvio
Não durou eternamente. Veio o momento em que
As águas negras baixaram. Sim, mas quão poucos
Sobreviveram!
...

Louvor ao Estudo
Estuda o elementar: para aqueles cuja hora chegou não é nunca demasiado tarde. Estuda o abc. Não basta, mas
Estuda. Não te canses.
Começa. Tens de saber tudo. Estás chamado a ser um dirigente. Freqüente a escola, desamparado! Persegue o saber, morto de frio!
Empunha o livro, faminto! É uma arma! Estás chamado á ser um dirigente. Não temas perguntar, companheiro! Não te deixes convencer! Compreende tudo por ti mesmo.
O que não sabes por ti, não o sabes. Confere a conta. Tens de pagá-la. Aponta com teu dedo a cada coisa e pergunta: "Que é isto? e como é?" Estás chamado a ser um dirigente.
...

Na Guerra Muitas Coisas Crescerão
Ficarão maiores
As propriedades dos que possuem
E a miséria dos que não possuem
As falas do guia*
E o silêncio dos guiados.
*Führer
...

Na Morte De Um Combatente Da Paz
Á memória de Carl von Ossietzky
Aquele que não cedeu
Foi abatido
O que foi abatido
Não cedeu. A boca do que preveniu
Está cheia de terra. A aventura sangrenta
Começa. O túmulo do amigo da paz
É pisoteado por batalhões. Então a luta foi em vão? Quando é abatido o que não lutou só
O inimigo
Ainda não venceu.
...

Nada É Impossível De Mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
...

Não Necessito De Pedra Tumular
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse: Ele fez sugestões
Nós as aceitamos. Por tal inscrição
Estaríamos todos honrados.
...

No Muro Estava Escrito Com Giz:
Eles querem a guerra. Quem escreveu Já caiu.
...

No Segundo Ano De Minha Fuga
No segundo ano de minha fuga
Li em um jornal, em língua estrangeira
Que eu havia perdido minha cidadania. Não fiquei triste nem alegre Ao ver meu nome entre muitos outros
Bons e maus. A sina dos que fugiam não me pareceu pior
Do que a sina dos que ficavam.
...

O Analfabeto Político
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Nada é impossível de Mudar "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar." Privatizado "Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."
...

O Maneta No Bosque
Banhado de suor ele se curva
Para pegar o graveto. Os mosquitos
Espanta com um movimento de cabeça. Com os joelhos
Amarra a lenha com dificuldade. Gemendo
Se apruma, ergue a mão
Para ver se chove. A mão erguida
Do temido
Guarda SS.
Antologia Poética de Bertolt Brecht
...

O Nascido Depois
Eu confesso: eu
Não tenho esperança. Os cegos falam de uma saída. Eu Vejo. Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.
...

O Vosso Tanque General,
É Um Carro Forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito - Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso: Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito - Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito - Sabe pensar
...

Os Esperançosos
Pelo que esperam? Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo? Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los! Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes! É por isso que esperam!
...

Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
...

Os maus e os bons
"Os maus temem tuas garras
Os bons se alegram de tua graça. Algo assim
Gostaria de ouvir
Do meu verso."
...

Para Ler De Manhã E À Noite
Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim. Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.
...

Perguntas De Um Operário Que Lê.
Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras? Babilônia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros? No dia em que ficou pronta a
Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A tão cantada
Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho? César venceu os gauleses. Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço? Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais? Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria. Quem cozinhava os festins? Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
...

Poesia do Exílio
Nos tempos sombrios se cantará também? Também se cantará sobre os tempos sombrios.
...

Precisamos De Você.
Aprende - lê nos olhos, lê nos olhos - aprende a ler jornais, aprende: a verdade pensa com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo não te convenças sozinho mas vejas com teus olhos. Se não descobriu por si na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto por ponto - afinal você faz parte de tudo, também vai no barco, "aí pagar o pato, vai pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta que é isso? Como foi parar aí? Por que? Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada das discussões, do silêncio. Esteja sempre aprendendo por nós e por você.
Você não será ouvinte diante da discussão, não será cogumelo de sombras e bastidores, não será cenário para nossa ação
...

Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."
...

Quem Não Sabe De Ajuda
Como pode a voz que vem das casas
Ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados? Como pode não ser um embusteiro aquele que
Ensina os famintos outras coisas
Que não a maneira de abolir a fome? Quem não dá o pão ao faminto
Quer a violência
Quem na canoa não tem
Lugar para os que se afogam
Não tem compaixão. Quem não sabe de ajuda
Que cale.
...

Quem Se Defende
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão. E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
...

Refletindo Sobre O Inferno
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres. Eu
Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno, que ele deve
Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles. Também no inferno Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grandes como árvores, que naturalmente fenecem Sem demora, se não são molhadas com água muito cara. E mercados de frutas
Com verdadeiros montes de frutos, no entanto
Sem cheiro nem sabor. E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes, nos quais
Gente rosada, vindo de lugar nenhum, vai a nenhum lugar. E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas. Também as casas do inferno não são todas feias
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões não menos que
Os moradores do barracos
...

Se Fôssemos Infinitos
Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
...

Sobre A Violência
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as bétulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?
...

Soube
Soube que
Nas praças dizem de mim que durmo mal
Meus inimigos, dizem, já estão assentando casa
Minhas mulheres põem seus vestidos bons
Em minha ante-sala esperam pessoas
Conhecidas como amigas dos infelizes. Logo
Ouvirão que não como mais
Mas uso novos ternos
Mas o pior é: eu mesmo
Observo que me tornei
Mais duro com as pessoas.
...

Também o Céu
Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós. Isto pode ser amanhã.
...

Tempos Sombrios
Realmente, vivemos tempos sombrios! A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar. Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes, pois implica em silenciar sobre tantos horrores.
...

Se os Tubarões Fossem Homens
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
...

Um Homem Pessimista
Um homem pessimista
É tolerante. Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para seu amado
Com pernas brancas sob a camisa - Isto o comove. Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite.
...

Esse Desemprego
Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!
..
Antologia Poética de Bertolt Brecht
culturabrasil.pro.br/brechtantologia

Fernando Pessoa para crianças


18.06. 2010

Talvez não saiba, mas a expressão "o melhor do mundo são as crianças" tem a assinatura do poeta Fernando Pessoa. Se tem lá em casa um pouco do melhor do mundo, ou seja, uma criança, que tal levá-la a visitar a Casa Fernando Pessoa, onde acabou de estrear a exposição Pequenos Pessoas?

O Projeto Pequenos Pessoas é uma aposta da diretora da Casa Fernando Pessoa (CFP), Inês Pedrosa, e da coordenadora, Carmo Mota, e tem como intuito divulgar a obra e a vida do escritor junto dos mais pequenos.

Durante este ano letivo, a CFP desenvolveu, em conjunto com quatro escolas, o projeto que agora deu lugar à Exposição Pequenos Pessoas. A mostra expõe os trabalhos feitos pelas crianças ao longo do ano e integra-se num projeto que pretende suscitar no público mais novo o gosto pela leitura e pela escrita e incentivar a criatividade em torno de Fernando Pessoa.

Rita Lemos, membro da equipe do serviço educativo da CFP, explica: "O projeto divide-se em três partes. A primeira é o 'Era Uma Vez Fernando Pessoa', em que vamos à escola apresentar o poeta e voltamos lá para uma segunda sessão, de trabalhos manuais, em que decoramos os óculos do poeta em cartão, que agora estão em exposição na CFP.


Mais tarde estes alunos visitam a casa do poeta no 'Era Uma Vez Tocar Piano e Falar Português' e posteriormente, no 'Era Uma Vez na Cidade de Pessoa', percorremos com eles a Lisboa a que o poeta está ligado, do seu nascimento à sua morte, do Chiado ao Rossio."

Como eles o pintaram
Os originais e criativos trabalhos destas pequenas pessoas que são os 265 alunos das escolas envolvidas foram feitos com telas, tintas e outros materiais oferecidos pela CFP às escolas. Os óculos em cartão do poeta que dizia "eu sou do tamanho do que vejo e não da minha altura" foram decorados com flores, conchas, tecido, cartolinas coloridas, lantejoulas e ráfia e os quadros expostos são trabalhos coletivos de um total de 12 turmas do 1.o ciclo, feitos por pequenos artistas dos 6 aos 9 anos.

São eles que decoram, até 16 de Julho, as paredes dos três andares da CFP, estando lado a lado com quadros famosos sobre Fernando Pessoa, como o de Almada Negreiros, os de Júlio Resende e Costa Pinheiro, as serigrafias de Miguel Yeco e ainda diversas ilustrações.

Os quadros destes artistas de palmo e meio chamados Bruno, Diana, Francisco, Manuel, Rita, Joana, Vanessa ou Ricardo mostram Fernando Pessoa, a sua namorada, Ofélia, o chapéu preto do poeta em versões coloridas, transcrições de poemas como "O Mostrengo" ou o "Comboio Descendente", imagens da Íbis e dos seus característicos óculos.

Amigos imaginários
"O mais difícil para eles são os heterônimos. Todos nós enquanto crianças temos amigos imaginários, e é assim que os apresentamos a eles. Há uma afinidade mais imediata com Alberto Caeiro, pela sua linguagem e temática. As crianças descobrem que o poeta, apesar de ter um ar sério, afinal escrevia coisas divertidas", acrescenta Rita Lemos.

E se alguns nem sequer o conheciam, depois do Projeto Pequenos Pessoas já o tratam por Fernandinho. Como dizia a famosa assinatura que o poeta inventou para a Coca-Cola, "primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Se quer familiarizar os seus filhos com a vida e obra de Fernando Pessoa, aproveite a visita ao n.o 16 da Rua Coelho da Rocha para ver objetos do quotidiano da vida do poeta, como o seu telefone, a máquina de escrever, o pincel de barba, as canetas e as poucas centenas de livros da sua biblioteca pessoal.

Quem sabe não está a estimular as primeiras palavras num poeta de palmo e meio ou as primeiras pinceladas artísticas num pequeno pintor que tem escondido lá em casa. Certo mesmo é que Fernando Pessoa vai apreciar a visita dos mais pequenos. Ou não tivesse ele escrito:


"Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar"


http://www.ionline.pt

Carlos Drummond de Andrade reeditado


Reedição de "Alguma Poesia" revela obra inacabada e marcante


por Carolina Oms
11.6. 2010


"Como você sabe, eu tenho um livro de versos como todo brasileiro digno e de óculos."
Drummond em carta a Mário de Andrade


Há 80 anos Carlos Drummond de Andrade publicava Alguma Poesia. Era o primeiro livro do poeta e foi pago por ele próprio, em várias prestações.

A estreia de Drummond trazia poemas que se sobressaíram na época e que estão formalmente associados à figura do poeta até hoje, como "Poema de Sete Faces"


(Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raymundo seria uma rima, não seria uma solução), "No Meio do Caminho" e "Quadrilha" (João amava Teresa que amava Raimundo).

Para comemorar a data, o Instituto Moreira Salles lançou "Alguma Poesia: O Livro em Seu Tempo", edição especial organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz que traz um fac-símile do volume que pertenceu ao próprio Drummond, com anotações manuscritas de mudanças que o poeta incorporaria nas edições seguintes.

A publicação também reúne cartas de amigos e críticos comentando o livro e uma rica amostra das resenhas e artigos publicados pelos jornais em 1930 e 1931.

A obra também mudou a vida do João Cabral de Melo Neto, conta Eucanaã, ele considerava poesia "uma coisa de moças". Na avaliação do organizador, a força do livro fica nítida na importância e na marca única que ele deixou em uma obra tão vasta como a de Drummond.

A reprodução do fac-símile foi uma sugestão do seu neto, Pedro Drummond. Sobre o antigo livro, já bem amarelado, as notações de Drummond, que, para Eucanaã, "dão a noção de que uma obra de arte pode não estar pronta quando aparece a primeira vez e de que poesia é uma coisa muito trabalhosa".

Como nos trechos de "Cidadezinha qualquer", onde Drummond posteriormente trocou cachorro por homem:


"Um cachorro vai devagar, Um cachorro vai devagar, Um burro vai devagar." E no famoso “Quadrilha”, onde o J. Pinto Fernandes realmente não tinha entrado na história, na primeira edição, ele se chamava Bredorodes:


"João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com Brederodes que não tinha entrado na história".


http://terramagazine.terra.com/


Entrevista - Ferreira Gullar

por João Pombo Barile
08/06/2010

Do Rio de Janeiro, por telefone, o poeta Ferreira Gullar conversou com o Magazine. Na entrevista, dentre outros assuntos, falou do novo livro de poesias, de Augusto dos Anjos, de poesia e de política.

Você acaba de ganhar o prêmio Camões. Esperava ser premiado?

Claro que não.

Mesmo com uma obra tão importante?

Escuta, cara: eu não estou dizendo que eu não mereceria... Isso é outra coisa. É porque eu não penso em prêmio. Não é uma coisa que faça parte de minhas preocupações. É evidente que eu fiquei muito contente de ter ganhado. Eu acho que esse prêmio tem uma alta significação. Fiquei muito feliz. Agora, eu não pensava em ganhar porque eu não sou muito otimista quanto a isso, não (risos). Eu já ganhei prêmios importantes, o Machado de Assis da ABL por exemplo. Mas não penso nisso.

Para você é importante ser reconhecido por sua obra?

Claro. Para todo mundo é. Para que eu escrevo? Primeiro, por minha necessidade, para me satisfazer, pelo prazer que eu tenho de escrever. Fazer um poema é uma alegria para mim. Pena que raramente aconteça. Quando acontece é uma alegria.

Além disso você escreve para o outro. Não é que eu fique pensando "como é que eu vou agradar?". Nenhum poeta pensa isso. Mas é legal você saber que, sem ter pensado, o outro se comove com o que você escreveu. O outro reconhece aquilo, o que o tocou e passou a fazer parte de sua vida. Isso que é importante. Então o reconhecimento, quando vem, inclusive da parte de outros escritores que são pessoas renomadas e qualificadas, é importante.

No evento de hoje em Belo Horizonte você vai homenagear Augusto dos Anjos. Ele é um poeta importante para você?

No Terças Poéticas cada um homenageia um poeta. E eu vou homenagear o Augusto dos Anjos. Tenho um estudo que escrevi sobre o Augusto dos Anjos na época que eu estava no exílio (trata-se de "Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina"). No livro, eu procuro mostrar a importância dele. Procuro mostrar nesse ensaio que ele é um dos nossos primeiros poetas modernos. Ele já tem modernidade. Ele não é inteiramente um poeta do modernismo, não é isso, mas a poesia dele já tem uma série de elementos que são modernos.

Quando você escreveu esse livro você estava na Argentina?

É. Eu, na verdade, comecei a escrever o livro no Peru e terminei na Argentina, a pedido até do Darcy Ribeiro. Foi ele que me meteu na cabeça que eu deveria escrever um livro sobre o Augusto dos Anjos.

Como é que foi essa história?

Um dia eu estava na casa do Darcy em Lima e começamos a conversar sobre poesia. E eu disse para ele: "Um dos meus poetas prediletos é o Augusto dos Anjos". E aí o Darcy falou: "Ah, que Augusto dos Anjos que nada. Aquele negócio de ‘Escarra nessa boca que te beija’". E eu falei: "Oh Darcy. Augusto não escreveu só isso... Eu vou te dizer uns poemas que eu sei de cor". E disparei.

Aí ele se entusiasmou: "Cara, eu nunca imaginei que o Augusto fosse um poeta tão bom". Daí a uma semana, o editor Fernando Gasparian chegou a Lima para tratar de negócios. E nós fomos almoçar com ele. No meio do almoço, o Darcy falou: "Olha, o Gullar está escrevendo um ensaio sobre o Augusto dos Anjos e queria que você publicasse, Fernando". Ele topou na hora. E o Darcy então falou: "Mas tem que adiantar um dinheiro". Ele então me deu US$ 100, para um livro que eu nem tinha escrito.

E US$ 100 era muito ou pouco para época?

Para mim, que estava vivendo com uma mão na frente e a outra atrás, era muito (risos). O Darcy fez de propósito. Ele sabia que a minha situação era precária. Eu tive então que escrever o livro. Quando cheguei a Buenos Aires, pedi para a minha mulher que me mandasse os livros necessários para escrever o ensaio.

Na segunda parte da entrevista, Ferreira Gullar fala do novo livro e do momento político brasileiro. O poeta faz críticas ao presidente Lula e ao PT.

No sarau de hoje você vai declamar algum poema do seu livro novo?

Vou. Mas ainda não sei qual.

Quando vai sair seu novo livro de poemas, “Em Alguma Parte Alguma”?

Vai sair logo depois do meu aniversário, que é em 10 de setembro [Gullar fará 80 anos). Mas a data certa ainda não sei.

Você continua não andando de avião?

Não. Eu não ando mais de avião. Eu tenho estresse. O estresse do aeroporto, da viagem... Atrasa tudo. Andar de avião é um sofrimento. A coisa mais rara é você chegar e embarcar na hora. É avião demais voando, e os aeroportos não comportam essa quantidade.

Você vai até Lisboa para receber o Camões?

Não sei. Não quero nem pensar nisso. Lá eu não vou não. Pegar avião para cruzar o Atlântico, ficou louco?

Você tem escrito ensaios?

Não. A minha ocupação permanente são as crônicas que faço para a “Folha de S. Paulo”. Tenho um livro chamado “Relâmpagos”, em que reuni textos poéticos sobre arte. Agora, estou preparando “Relâmpagos 2”, selecionando artigos que escrevi para algumas exposições, e textos que estou escrevendo. Devagar, sem pressa. Um livro que está me dando muito prazer de escrever.

Neste ano temos eleição presidencial. Você está animado?

Ah, vai ser uma batalha. Os dois candidatos estão empatados. Espero que o Serra ganhe. Será um absurdo se o Lula, que empurrou a Dilma garganta adentro do PT, vá empurrar agora garganta adentro do país só pela vontade exclusiva dele. Acho que nem a Dilma é a favor disso.

Mas o governo Lula não teve nenhum mérito?

Não é que não teve nenhum mérito. O principal problema do Lula é ele não reconhecer o que ele deve aos governos anteriores. Tudo dele é “Nunca na história deste país...”. Ele se faz dono de tudo o que ele combateu. Por que o Brasil passou pela crise da maneira que passou? Porque havia o Proer (programa de auxílio ao sistema financeiro).

Mas o PT foi para a rua condenar o Proer dizendo que o governo FHC estava dando dinheiro para banqueiro. E a Lei de Responsabilidade Fiscal? O PT entrou no STF contra a lei. Ainda está lá o processo do PT para acabar com a Lei de Responsabilidade Fiscal. O PT era contra o superávit primário, era contra tudo.

Quer dizer, tudo o que eles estão adotando e que se constitui a infraestrutura da política econômica eles combateram. Agora o cara não reconhece isso: ele diz que fez tudo. O Lula é, de fato, uma pessoa desonesta. Um demagogo. E isso é perigoso. Está arrastando o país para posições que são realmente inacreditáveis.

O cara se tornar aliado do Ahmadinejad, o presidente de um país que tem a coragem de dizer que não houve o Holocausto? Ele está desqualificando mundialmente porque está negando um fato real que não agrada a ele. Então não pode. O Brasil vai se ligar a um cara desse? É um oportunismo e uma megalomania fora de propósito. É um desastre para o país.

Eu espero que a Dilma perca a eleição. Não tenho nada contra ela, mas contra o que isso significa. O PT é um perigo para o país. O aparelhamento do Estado, o domínio dos fundos de pensão... Um sistema de poder que vai ameaçar a própria democracia. As pessoas têm que tomar consciência.
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A decadência da Poesia

A poesia não se vende e, portanto, não tem mais importância.
É claro que esse gênero literário não é o único que perdeu
“fatias de mercado” na cena cultural atual.

por Jacques Roubaud *

A situação

No século XXI, agora solidamente estabelecido, a poesia continua a perder espaço: nos jornais – o Le Monde des livres, suplemento literário do diário francês Le Monde, pode passar um ano inteiro sem publicar resenhas de livros inéditos de poesia contemporânea; nas livrarias, que, na maioria, não contam mais com uma seção dedicada a obras desse gênero; e na televisão, que tampouco se interessa pelo assunto.

Uma espécie de incômodo impedia, até pouco tempo, as autoridades culturais de tirar proveito desse fato social. Mas elas finalmente se deixaram levar, talvez sem perceberem.

Essa situação é uma consequência da quase inexistência econômica da poesia – pelo menos dessa que se escreve atualmente. A poesia não se vende e, portanto, não tem mais importância. A poesia não tem mais importância e, portanto, não se vende. É claro que esse gênero literário não é o único que perdeu “fatias de mercado” na cena cultural contemporânea.

O romance, a literatura em geral e o próprio livro foram afetados. Mas, no caso da poesia, estamos diante de uma forma extrema de desaparecimento.

De quem é a culpa?

Há quase um século – e com uma obstinação tocante – a responsabilidade por tal circunstância é atribuída aos próprios poetas. Expõe-se uma série de acusações para explicar e justificar a desafeição comercial: os poetas contemporâneos são difíceis, elitistas, a poesia é uma atividade fora de moda e ultrapassada.

Os poetas são narcisistas, não se dão conta do que realmente acontece no mundo, não intervêm para libertar reféns ou para lutar contra o terrorismo, não fazem diminuir a desigualdade social, não se mobilizam para salvar o planeta e não falam a mesma língua de todo mundo. Eis porque não os lemos. Eles mesmos são os culpados por isso.

É inútil comentar tais acusações. Digamos apenas que quem se interessa por poesia, geralmente conhece e gosta de Victor Hugo, Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, Eluard, Aragon, Char e Michaux, por exemplo, mas acha que os poetas de seu tempo são difíceis, escrevem de maneira incompreensível e, assim, não os lê.

Parece que esses leitores estão na mesma situação de alguém afetado por uma grave doença e que, depois de ficar um mês na cama, enfrenta grandes dificuldades para permanecer em pé. Ou seja, lemos cada vez menos e o que, por acaso, tentamos ler, parece impenetrável.

O Verso Internacional Livre


A situação descrita acima teve efeitos diversos sobre os poetas. A primeira consequência foi precipitar uma evolução formal, que está em andamento há muito tempo. Houve o verso livre padrão dos surrealistas, que substituiu o verso metrificado-rimado tradicional, sua demolição pela vanguarda dos anos 1960 (Denis Roche) e a conversão, bastante difundida, ao Verso Internacional Livre, importado, como tantos outros produtos, dos Estados Unidos.

O VIL é um verso não metrificado nem rimado e que, geralmente, ignora as características da tradição poética de determinada língua. Ele “muda de linha”, fugindo às rupturas sintáticas demasiado fortes.

Podemos fazer VIL em quase todas as línguas. Qual é a vantagem? Evitar, sem grande dificuldade, as terríveis “taxas alfandegárias da tradução”, que desencorajam os editores e os tradutores, e escapar do confinamento nas “fronteiras do dialeto”, algo temível na era da globalização.

O VIL ainda é muito presente na cena poética mundial, em todo festival internacional de poesia, toda antologia poética ou revista literária. Suas exigências protocolares são demasiado débeis, o que promove um deslizamento cada vez mais claro em direção a uma fase (a última?) da evolução formal: aquela em que o próprio verso não é mais considerado necessário.

Já havia essa tendência – nos anos 1990, eu a constatei muitas vezes – de desaparecimento do verso, presente em grande número de poetas, que liam seus poemas como prosa, ornada retoricamente pela voz, pois é preciso ver que se trata de poesia. Nessas condições, por que não escrever simplesmente prosa?

A poesia, então, e isso é particularmente perceptível nos poetas que mais se destacam na França ou nos Estados Unidos, se faz com prosas curtas, mas não visivelmente narrativas: a ausência de uma trama narrativa clara é, assim, o único indicador de que o texto pertence ao gênero da poesia.

Ainda é possível ser poeta?

Mas por que, nessas circunstâncias, manter a afirmação de pertencer à categoria “poeta”? As respostas são, com frequência, contraditórias e ambíguas. A fraqueza da poesia no terreno econômico provoca um desprezo mais ou menos evidente em relação aos que ousam reivindicá-la.

Trata-se de um movimento natural do tipo de sociedade em que vivemos e em que vive o poeta. A poesia não se dedica muito aos acontecimentos desagradáveis que se reproduzem por toda parte – aliás, em minha opinião, esse não é seu papel.

Mas, se por acaso ela tem a audácia de fazê-lo, lhe responderemos, como Stálin teria respondido a alguém que lhe falasse da oposição do papa à sua política: “O Vaticano? Quantas divisões?”.

Para as pessoas, e para a “quarta página dos jornais”, onde ficam os anúncios publicitários, ser poeta é, no fundo, rigorosamente nada.

Aliás, se dirá, a poesia, coisa nobre, não é mais o que fazem os poetas. Eles não a merecem. A poesia está em outros lugares: na canção, no pôr-do-sol, no romance etc. Pois a poesia, para as pessoas, só é concebível quando a encontramos onde ela não está.

Isso pode ser chamado, a partir de uma expressão de Yannick Liron, de efeito fantasma. A poesia está morta para todos os fins práticos, mas sua aura permanece.

Não surpreende que, para muitos, declarar-se poeta, em nossos dias, tenha algo de ridículo e até de vergonhoso. Os efeitos de decomposição formal mencionados se conjugam com o sentimento de inadequação ao mundo e com um desejo legítimo de reconhecimento social, levando um grande número de poetas a não apresentar seus livros como poesia, a negá-los.

E assim, inevitavelmente, excelentes poetas, desencorajados pela ausência de repercussão (vendas inexistentes; espera de um ou dois anos para ver seus livros publicados por editoras que não sejam minúsculas ou financiadas pelo próprio autor; o silêncio infalível da imprensa etc.), passam a se dedicar a outras atividades: ao romance, ao teatro, ao cinema ou à ópera.

Produtos de substituição

Sendo a poesia inútil, ou seja, invendável, passada, ultrapassada, atividade linguística fora de moda, gênero literário moribundo, muita gente pensou que seu desaparecimento não seria ruim, e que seu lugar seria reservado a um novo produto, livre das pressões do passado literário, “absolutamente moderno”.

A isso se dedicou no passado a vanguarda que instaurou em seu lugar o TEXTO. O “texto” desapareceu, aparentemente sem deixar rastros, mas pudemos notar um reaparecimento recente, sob a forma do documento poético.

Geralmente de dimensões modestas, lhe permite ser muito mais acessível na tela do que o romance, por exemplo. (Quem já leu Em Busca do Tempo Perdido em uma tela de computador?)

Não farei prejulgamentos sobre o futuro do e-book, que nos prometem regularmente há vários anos, mas que ainda não tem uma existência muito garantida. O “mercado”, esse personagem todo poderoso que reina no mundo, lhe prepara o terreno, por exemplo, começando a esvaziar as bibliotecas públicas.

Contudo, podemos constatar que encontramos muitos poemas na rede mundial de computadores e, que a poesia, por isso, atinge mais leitores que o livro, pois esse é pouco vendido.

Ao mesmo tempo, as leituras de poesia se multiplicaram, e os auditórios têm frequentemente dimensões respeitáveis. A economia, entretanto, uma vez mais, desempenha um papel nesse fenômeno: muitas cidades descobriram que era muito mais barato convidar um ou dois poetas do que um cantor, uma orquestra ou um balé. É nesse contexto que a “necessidade de poesia” encontrou um modo de expressão original: o slam.

Slam

A “necessidade” de andar de bicicleta se manifesta mais subindo sobre uma do que assistindo ao Tour de France3 pela televisão. O sucesso das bicicletas de aluguel em Paris é prova disso. Da mesma maneira, a vontade de entrar em contato com a música pode se realizar no karaokê e na ida a concertos, mas tal realização é sem dúvida mais plena com a participação ativa em um coral ou em uma banda de rock.

A invenção do slam, ao menos inicialmente, se baseava em um postulado explícito: todo mundo é virtualmente poeta.

Todo mundo, portanto, pode “dar uma de poeta”. O slam, se diz, é uma “arte de expressão popular oral, declamatória, que se pratica nos lugares públicos como bares ou associações, sob a forma de encontros e de justas oratórias”.

Extraio esta passagem de uma apresentação do slam: “a palavra slam designa, na gíria americana, ‘o tapa’, ‘o impacto’, termo emprestado da expressão ‘to slam a door’, que significa literalmente ‘bater a porta’. No quadro da poesia oral e pública, trata-se de pegar o ouvinte pelo colarinho e de ‘bater’ nele com as palavras, as imagens, para sacudi-lo, emocioná-lo”.

O slam pode ser identificado por várias características:

– Ele é oral

– Ele não tem, a priori, intenções artísticas – prova, segundo seus iniciadores, de seu caráter democrático

– É uma arte de improvisação. Dessa forma, restabeleceria o contato com a poesia tradicional popular

– Se supõe que ele faça renascer “um velho gênero literário da Idade Média: a ‘tenson’ (gênero poético medieval praticado pelos trovadores da Occitânia), em que dois poetas se lançam em um desafio oratório sobre um assunto previamente determinado”.

Tal genealogia prestigiosa repousa sobre um contrassenso: a tenson dos trovadores era infinitamente erudita e supunha um público capaz de apreciá-la. O mesmo acontecia com a poesia tradicional improvisada, que se apoiava em práticas muito antigas, utilizando formas complexas e regras restritivas.

É impossível se aproximar de tais modelos no estado de ignorância geral em relação à poesia que existe hoje. Por isso só encontramos, na produção “slamista”, fragmentos de poesia clássica privados de suas condições de existência, métrica e ritmo.

A rima acordou de seu longo sono, mas desceu ao estado mínimo, no qual reina nas composições do ensino primário. Notamos reminiscências escolares decrépitas e, principalmente, a expressão dos sentimentos mais rasos, das emoções indiscerníveis daquelas presentes nas novelas.

O vrum-vrum


O slam, sem dúvida, não apresenta um perigo muito grande para um exercício menos elementar da poesia. O mesmo não acontece em relação ao fenômeno que denomino “vrum-vrum”.

Trata-se da invasão do campo da poesia pelo que foi chamado de “poesia de performance” e que, em estreita colaboração com os “atores culturais” públicos ou privados, tomados por uma devoradora paixão pelo “espetáculo vivo”, tende a se tornar o modo privilegiado de existência da poesia, excluindo o escrito em benefício da oralidade.

Vemos assim, cada vez mais, nas manifestações que se declaram “poéticas” – festivais internacionais de poesia, por exemplo –, “poetas” cuja atividade apresentada ao público consiste em rolar embaixo de uma escada; rasgar uma grossa lista telefônica em cena; produzir, com ajuda eletrônica, sequências sonoras inusitadas e admiráveis que não incluam uma única palavra.

Quando a língua é chamada para contribuir,
em um enorme número de casos, o
texto produzido é medíocre
.

Todas essas manifestações são respeitáveis, às vezes impressionantes, não raramente de grande qualidade artística. Mas por que chamá-las de “poesia”? Por que não denominá-las música, ginástica, número de circo, sketch, canção, balé, striptease?

Uma das obras reclamadas como emblemáticas pelos adeptos do vrum-vrum, a Ursonata, de Kurt Schwitters, se anuncia exatamente como música e não como poema. Certamente é a quase inexistência da poesia na economia que permite tal ridículo desvio. Um “poeta” desse tipo, que só apresenta sons, não precisa temer a concorrência feroz que encontraria caso desejasse se impor no campo musical.

Ler e dizer

Eu não sou profeta e não sei se o vrum-vrum se tornará ou não a única forma reconhecida de poesia. Sem ir até esse estado extremo, me parece que há o risco de se estabelecer a dominação esmagadora da dimensão oral em detrimento do livro e mesmo da tela.

Isso seria uma amputação e uma regressão. Ora, existe hoje na França, como sempre existiu, poesia; muito boa poesia. Difícil ou não, que fala de tudo, de você, de nada, e que inventa, renova, surpreende, encanta.

A encontramos nos livros, revistas, gravações sonoras, vídeos; nas livrarias (elas existem) que não renunciaram a apresentá-la, a apoiá-la, a vendê-la. Leia-a, copie-a, aprenda-a, como se fazia no passado.

Esse artigo serve para defender o seguinte ponto de vista: que a poesia tem lugar em uma língua; que ela é feita com palavras – sem palavras não há poesia; que um poema deve ser um objeto artístico da língua com quatro dimensões, ou seja, composto para uma página, para uma voz, para um ouvido, e por uma visão interior.

A poesia deve se ler e dizer.

* Jacques Roubaud é poeta, romancista e matemático

Fonte - Le Monde Diplomatique